Um parênteses sobre a acerola

 

09.12.2006

Em outubro de 1984, o Globo Rural falou pela primeira vez de uma fruta então praticamente desconhecida: a acerola.

Já se vão 22 anos. Até o nome da fruta ainda era duvidoso, pois naquela época os poucos que a conheciam chamavam a acerola de “cereja das antilhas”.

Houve em seguida uma grande distribuição de mudas e sementes feita pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, e documentada pelo Globo Rural. Hoje, é fácil encontrar suco de acerola por todo o canto – e tem muita gente que vive dela.

Nesta edição, você vai conhecer um projeto enorme, de uma multinacional que veio plantar acerola no Ceará para produzir vitamina C orgânica.

 

Acerola na caatinga

Reportagem de Helen Martins

09.12.2006

 

 

 

 

Numa casa sem energia elétrica vive a funcionária de uma empresa multinacional, a trabalhadora rural Maria do Socorro Pereira.

Às 5h30, dona Socorro já está voltando do banho no açude. O marido dela, seu José Maria, também levanta cedo, pra regar as mudinhas de maracujá. “Eu tenho que aguar antes do sol sair, porque nós plantamos ontem”, ele explica.

O casal teve 19 filhos. Sete morreram, e todos os outros moram com os pais na casa simples. Maria Wanderlei de, de 13 anos, traz na barriga o segundo neto. “Estou com cinco meses”, ela conta.

Enquanto alguns ainda dormem, dona Socorro se prepara pro batente. Veste o uniforme, passa protetor solar e batom. “Quando a gente não passa fica com o rosto todo grosso, seco”, justifica.

São 6h15 da manhã; ainda dá tempo de assistir o Globo Rural diário na TV em preto e branco, que funciona com bateria de carro. Dona Socorro toma um cafezinho antes de sair de casa. “Eu já merendei. Tenho orgulho de acordar esse horário pra sair e ir ganhar o pão. É daí que a gente come”, ela diz.

E lá vai ela, na estradinha pedregosa que leva ao asfalto. O ônibus da empresa não demora a chegar, e dona Socorro se junta a outros trabalhadores.

O ônibus avança pela estrada, e em várias outras casas o ritual da saída pro trabalho se repete. Seu Antônio mora numa vila dentro da fazenda e segue a pé; beijo pra lá, beijo pra cá, Raidon também se despede. Leva junto a filha mais velha, que vai pra escola.

Na porta da fazenda, os trabalhadores fazem fila pra entrar – inclusive dona Socorro, seu Antônio e Raidon. Todos batem o cartão e recebem um vale-refeição. De lá, cada um vai assumir seu posto.

Eles trabalham na fazenda de um grupo americano em Ubajara, noroeste do Ceará.

Em Ubajara, a grande atração é o parque nacional, que fica na serra de Ibiapaba. A encosta acompanha a divisa com o estado do Piauí. Além da cachoeira do Cafundó, o principal ponto de visitação é a gruta, com nove salas iluminadas.

O parque fica no mesmo município da fazenda produtora de acerola, mas o cenário é bem diferente: é uma região de caatinga, onde o solo é quase pura areia. Lá também venta muito; em algumas épocas do ano, o vento chega a atingir 60 quilômetros por hora.

Mas nenhuma destas condições adversas impediu que se instalasse lá uma grande ilha de verde.

Houve até quem desaconselhasse a compra da fazenda, mas foi um homem, com cara de estrangeiro, e inglês perfeito que insistiu no projeto.

Richard Charity, o gerente geral da fazenda, é brasileiro, filho de ingleses. Formado em agronomia, ele explica como os americanos vieram para o Brasil, há oito anos: “Eles passaram os primeiros 20 anos cultivando acerola no Caribe, num local onde a acerola é nativa, o centro de origem de acerola é lá. Por intempéries climáticas, furacões e desastres a cada dois anos, houve uma tentativa de sair daquela região. Nessa época estava havendo um boom da acerola no Brasil”, conta ele.

“Escolheram o estado do Ceará por estar próximo dos Estados Unidos pra exportação. A localização geográfica é muito boa, o clima é muito bom. Por exemplo, aqui nós estamos numa região de altitude, a 850 metros de altitude e mesmo assim é seco e é quente. É um microclima ideal para a produção de frutas”, continua Charity.

Como em suas outras fazendas, o grupo americano optou pela agricultura orgânica. Mas lá foi adotado o sistema biodinâmico – que nós vamos explicar como funciona na segunda parte da reportagem.

Na fazenda tem plantação de maracujá, de caju e de coco, mas 90% do faturamento vem da acerola. A fruta é rica em vitamina C – chega a ter cem vezes mais do que a laranja, por exemplo. A safra dura o ano todo, com pico de produção de março a junho.

Cada pé de acerola produz em média 42 quilos da fruta por ano, mas existem alguns que atingem até 90 quilos. Na época da colheita, o que se imagina é que seriam retirados do pé apenas os frutos maduros. Mas lá, a colheita é de frutos verdes.

Wagner Lima é o encarregado da colheita, e explica porque colher a acerola ainda verde. “O nosso objetivo é colher vitamina C, e na acerola verde tem pelo menos o dobro de vitamina C. Mas a gente colhe apenas 10% da frutas verdes, para não comprometer o produto final”.

Entre as moças que fazem a colheita está dona Socorro, que a gente acompanhou saindo de casa de madrugada. Ela vai enchendo seu baldinho, devagar e sempre. “Quando a safra tá boa eu colho seis, oito caixas, até nove. Mas quando a safra ta fraca, eu também sou fraca”, ela diz. “Se eu não estivesse trabalhando aqui, vivia era passando fome mais a família. Como eu tô trabalhando, eu não passo precisão de comida, não. Mas já passei demais. Já fiquei três dias sem botar panela no fogo, e agora é só tirando uma e colocando a outra”.

A fazenda chegou a testar 77 variedades de acerola, e selecionou seis. O teor de vitamina C foi um dos parâmetros analisados, junto com produtividade, resistência e tolerância a pragas e doenças.

Na paisagem, dá para ver baldes e mais baldes de acerola orgânica. São os colhedores chegando do campo depois de um dia de trabalho.

A produção da fazenda vem aumentando ano a ano, junto com o crescimento das plantas do pomar. “Em 2005, nossa produção foi de 2 milhões e 200 mil milhões quilos. Para 2006, esperamos colher 3 milhões e 200 mil quilos. Em 2007, 3 milhões e 800 mil quilos”, calcula Wagner Lima, o encarregado da colheita.

Processamento
Depois de colhida, a acerola vai para a indústria. Na época da safra, chegam a ser processadas 45 toneladas da fruta por dia – que vão virar polpa ou concentrado de vitamina C.

A acerola passa por um banho, pela seleção e, depois, é despolpada. Parte das sementes será usada na alimentação dos animais da fazenda; outra parte vai para um forno pra secagem. “A matriz está consumindo este produto pra fazer um blend com o bagaço de outras frutas, pra fazer um fibra digestiva com princípio funcionais”, explica o gerente industrial, Wilson Rocha.

Mas é da polpa da acerola que sai o produto mais valioso. De hora em hora, uma amostra é levada ao laboratório da própria fazenda para a análise do teor de vitamina C. O teor ideal é de 2% a 2,5%. Mas e se estiver muito baixo? “Nós podemos fazer a correção com novas frutas, frutas mais verdes, justamente pra aumentar esse brix e o concentrado final”, diz Rocha.

A acerola pode seguir dois caminhos, conforme o interesse do mercado: pode ser pasteurizada e vendida na forma de polpa, ou passar por outros processos até se transformar no concentrado de vitamina C.

“70% da nossa produção vai pra exportação. Ou pra nossa matriz ou pra outras empresas que fazem pó e exportam pra Europa”, completa o gerente industrial.

A partir do concentrado da acerola brasileira, a multinacional que é dona da fazenda produz lá nos Estados Unidos comprimidos de vitamina C. É um grupo muito grande que também fabrica outros suplementos alimentares, produtos de limpeza, de higiene pessoal e beleza.

A partir de 2007, será possível produzir o concentrado de vitamina C em pó lá mesmo na fazenda cearense, através de um equipamento que estava sendo montado na época da nossa visita.

Gilberto Lima, agrônomo e coordenador financeiro da fazenda, está otimista. “O investimento foi por volta de US$ 3 milhões nesse secador. Eu acredito que, além de economizar na parte de armazenagem e frete – porque são volumes menores – , nós vamos ter um valor agregado excelente, vamos poder exportar com mais facilidade, até por via aérea, para a nossa matriz e para o mercado europeu”, ele diz.

Na reportagem seguinte, conheça o manejo biodinâmico que garante esta produção de acerola no meio da caatinga.

 

 

 

Agricultura biodinâmica

Reportagem de Helen Martins

09.12.2006

 

 

 

 

Até hoje, um trator repete um trabalho que é feito desde os primeiros dias de implantação da fazenda: ele espalha no solo um coquetel de sementes, uma mistura de leguminosas e gramíneas.

A agrônoma Leocádia Danielli explica o objetivo do serviço: As gramíneas crescem muito e têm muita massa, e as leguminosas captam o nitrogênio do solo e trazem pra superfície. Depois nós incorporamos essa biomassa, e todos esses nutrientes voltam para a camada superficial do solo”.

Outro cuidado é a proteção contra o vento forte. Leguminosas, como a leucena e o sabiá, funcionam como quebra-vento. Todo o manejo é baseado nas normas do Instituto Biodinâmico, que certificou fazenda.

Lá, nunca se usa veneno para controle de pragas. José Vieira Dizim percorre os pés de acerola com os olhos bem abertos, e anota tudo numa ficha. É ele quem faz o monitoramento de pragas. “Nós temos quatro monitores, cada um atua em 40 hectares. A gente vê quais são as áreas que estão mais atacadas com as pragas”, ele explica.

Quando uma praga ou doença é encontrada, entram em ação caldas como a bordalesa e

No dia em que estivemos lá, o pessoal preparava uma calda de sabão.”Nós controlamos o pulgão e a cochonilha ortésia com o sabão, mas o sabão em barra dava muito trabalho pra derreter. Aí eu me lembrei que a minha avó fazia sabão, e liguei pra ela: ‘nonna, me dá uma receita de sabão líquido?’. E ela me deu. E estamos aplicando até hoje. O sabão da nonna Angelina tá funcionando”, brinca Leocádia.

Nos coqueirais, o controle de lagartas é manual: os funcionários vão de pé em pé retirando a folha enrolada onde elas se escondem. Quem coordena o serviço é o seu Antônio, aquele que nós encontramos na primeira reportagem, saindo de sua casinha na vila pra trabalhar.

Ele conta qual foi a sua reação quando soube que não seria usado veneno a lavoura. “A impressão era que os insetos iam comer até a gente aqui dentro, porque era inseto demais”, contou seu Antônio. “Eu achei meio difícil”.

Hoje, seu Antônio colhe os frutos do seu trabalho. Ele marca no caderninho o número de cocos colhidos no dia. “Cada riscozinho que eu faço são 50 cocos. Um quadradinho que fecha é 250, os quatro é mil. Aqui, pra gente trabalhar, o que precisa mais é da matemática”, ele diz.

Por causa da matemática, seu Antônio voltou a estudar; para dominar os números e melhorar no serviço. Ele faz o dever de casa ao lado de Maurício, o mais novo dos seus sete filhos. As lições que passam um para o outro não são apenas as que se aprende em sala de aula; muitas vêm do trabalho. Seu Antônio, no trabalho, orienta os colegas a jogar o lixo na lata do lixo, e ensina o mesmo para o filho. “Ele ensina. Meu bolso está cheio de papel”, atesta Maurício.

Dona Maria, mulher de seu Antônio, também ganha um dinheiro como cozinheira da fazenda nos finais de semana. Ela lembra dos tempos de dificuldade. “Muitas vezes eu ficava à noite amamentando o menino, e até o pai dele chorava, porque estava com fome. Chorava, com vontade de comer um pouquinho de açúcar, e não tinha naquela época“, conta.

Desta época, em que fazia bicos nos engenhos da região, seu Antônio não guarda nenhuma saudade. “Eu trabalhava lá, e davam umas rapaduras pra gente, e uma cabaça de mel. Ou um troquinho, mas muito pouco. Antes de eu mudar pra morar aqui, faltou bem pouquinho pra eu morrer de fome”, lembra.

Fome, os mais de 300 funcionários da empresa não passam. Eles comem no bandejão; no almoço tem arroz, feijão, macarrão e carne. A salada é orgânica, produzida na própria fazenda. E o suco é de acerola, claro. Depois do almoço, tem até um momento de diversão antes da volta ao batente.

Trofobiose
Além do controle de pragas e doenças, os pomares também precisam de boa nutrição e irrigação adequada, que é garantida pelo açude. “Nós gastamos 600 mil litros por hora, durante 18 horas ao dia”, afirma o encarregado da irrigação, Nilson Pereira da Costa..

Planta que não sofre com falta de água ou excesso de vento e que é bem nutrida, é uma planta saudável. É o princípio da trofobiose – termo de origem grega: “trofos” significa alimento, e “bios”, vida. Segundo esse conceito, a vida de qualquer ser depende de uma boa alimentação. No caso da planta, uma boa nutrição vai conferir maior resistência ao ataque de pragas e doenças.

Dentro dos preceitos biodinâmicos, o ideal é que os nutrientes venham da própria fazenda. A comida das plantas é o composto orgânico. “Nesse composto nós temos bagaço de cana, esterco de gado, resíduo de acerola e também matos que coletamos na própria fazenda”, mostra a cozinheira Maria da Silva.

Boa parte do esterco utilizado no composto também vem do gado criado na fazenda. Raidon, que nossa reportagem também acompanhou quando saía de casa, é vaqueiro. Ele se prepara pra ir até o pasto: separa o cavalo e veste a roupa de couro.

A sala com as tralhas dos vaqueiros é arrumadinha: organização, higiene e eficiência contam pontos para os funcionários. Na parede, o quadro com a avaliação do programa de qualidade da empresa. No final do ano, isso vira um prêmio. “”Nós temos um bônus que recebe no fim do ano. Se a gente recebe essas estrelinhas azuis, no final do ano recebe tudo completinho. Recebendo da azul pra baixo, aí cai uma porcentagenzinha”, explica Raidon.

Ele já está todo vestido, mas nós atrasamos um pouco a sua saída pro campo pra matar uma curiosidade: qual a origem do nome do Raidon? “Tinha um cantor com o nome de Raidon Portela. Quando eu nasci, meu pai conheceu ele, achou o nome dele muito bonito e resolveu colocar o mesmo nome”, explica. E até canta um trechinho da música do Raidon cantor, para a gente conhecer.

No pasto, Raidon troca a música do xará pelo aboio. Os animais seguem os vaqueiros pela estrada poeirenta. São levados ao curral, onde recebem alimentação no cocho: capim elefante, bagaço de acerola, e sal mineral.

O gado toma as vacinas obrigatórias, como a da aftosa, e o tratamento de doenças é na base da homeopatia.

Aliás, a homeopatia também é usada no composto onde entra o esterco dos animais. O preparado homeopático é um conjunto de plantas medicinais que são adicionadas em pequenas quantidades ao composto. Tem mil folhas, que é fonte de potássio; urtiga, que é fonte de ferro; camomila, que é fonte de cálcio; casca de carvalho, que tem cálcio e tanino, um repelente para insetos; dente de leão, que é uma fonte de sílica; e, por último, a valeriana, que ajuda na absorção de fósforo. Tudo isso é para enriquecer ainda mais o composto.

O funcionário pega um pouco do composto, coloca um tantinho de cada uma das ervas e aperta, formando uma bolinha. Faz um furo em pontos diferentes do monte e vai enterrando as bolinhas – cinco delas, ao todo. A pilha será revolvida e bem misturada.

A aplicação da homeopatia é feita duas vezes em cada monte. “Os preparados disponibilizam mais rápido os nutrientes que tem no composto para a planta”, explica a agrônoma Leocádia Danieli. Além do composto, a acerola também recebe caldas nutritivas e esterco fresco, graças ao pastejo direto das ovelhas.

Como deu pra perceber, as diversas atividades da fazenda funcionam de forma integrada, obedecendo uma dinâmica própria. Daí, o nome de “agricultura biodinâmica”. “É bio – nós trabalhamos com composto, com material orgânico, com rotação de cultura, compostagem, plantas companheiras, tudo isso. Mas não deixamos também de olhar o lado vita, o lado dinâmico, a força – que significa vivificar o solo, para que as plantas, além de terem todos os nutrientes, também sejam vivas”, resume o gerente da fazenda, Richard Charity.

Na última parte da reportagem, conheça as ervas que estão em estudo na fazenda, e as mudanças na vida do povo de Ubajara.

 

 

Qualidade de vida

Reportagem de Helen Martins

09.12.2006

 

 

 

 

A acerola trouxe os americanos ao Ceará e, em oito anos, já se estabeleceu como a principal cultura da fazenda. Agora, é hora de apostar na diversificação.

E o novo produto pode estar logo ali, na natureza. Plantinhas conhecidas há anos, usadas no chazinho da vovó, são pesquisadas pelo biólogo Francisco Ávila na farmácia verde da fazenda.

Tem macela, erva baleeira, mutri, equinácea, e um destaque: o picão preto. Ele sempre foi considerado uma praga no campo, mas isso está mudando. É que suas folhas contém ácido clorogênico, uma substância antiinflamatória que já está sendo explorada pela fazenda.

Por enquanto, o picão ocupa apenas um hectare, mas é só o começo. “Nós vamos plantar de 30 a 90 hectares de picão preto pra produzir uma grande quantidade dessa matéria. E o que é interessante é que há um reflexo na comunidade local, porque isso está diretamente relacionado à contratação de pessoas. Então, você imagina a quantidade de famílias que vão ser beneficiadas por um projeto como esse? Pessoas que nem imaginam que suas vidas vão mudar”, diz o biólogo Francisco Ávila.

A vida já mudou muito por lá, desde o início da fazenda. Boas casinhas na beira da estrada que leva à empresa, por exemplo, não existiam.

Outra mudança ocorreu no assentamento Valparaíso, vizinho da fazenda. A novidade é o plantio de acerola: há um ano e meio, alguns assentados viraram parceiros da fazenda, cultivando 10 hectares de acerola orgânica pra completar a demanda. O pomar comunitário é tocado por 18 assentados.

Seu Vicente, Seu Benedito e seu Xixico depositam nas plantas, ainda pequenas, grandes expectativas. Seu Benedito Salvino já pensa nas mudanças que a acerola vai trazer: ”Quando nós tiver produzindo. vamos precisar em média de umas 200 pessoas pra colher. E como é um projeto familiar, sem dúvida alguma nos vamos contar com a população de assentados, que em vez de sair do assentamento pra trabalhar fora para outros proprietários, vão trabalhar aqui em Valparaíso”.

Como as aceroleiras do assentamento, mudinhas de plantas nativas um pouco distantes dali também vão crescer. Elas fazem parte de um projeto da empresa para recuperar a mata ciliar do rio Jaburu, que abastece o açude, ao lado da fazenda.

Muitos agricultores se recusaram a plantar as mudinhas pra não perder espaço na beira do rio. Mas, aos poucos, as cabeças por lá vão aprendendo a pensar diferente – algumas destas cabeças, formadas na escola da fazenda.

A escola, que hoje fica dentro da fazenda, também mudou muito. “Antes, tinha duas salas só. As salas não tinham janela, a porta era quebrada, as cadeiras também. Acho que alguns alunos sentavam até no chão. A gente dividia sala com uma outra turma, também”, recorda Nayara Gomes Honorato, de 15 anos, que estuda lá.

Hoje, a escola foi ampliada. Tem aula de música e artesanato, biblioteca, escolinha de futebol e até equipe de atletismo. Durante o recreio, os alunos se divertem com a rádio-escola.

Na hora da merenda, a cozinheira dona Margarida prepara a sopa com a multimistura fornecida pela fazenda. Usando farelos de vários vegetais como trigo, amendoim e macaxeira, a multimistura é um composto de vitaminas. Depois que ela passou a fazer parte da merenda, as crianças recuperaram peso e melhoraram o desempenho escolar.

Ao lado da escola, foi criada uma horta que, de certa forma, é uma miniatura do sistema da fazenda. Tem criação de animais, minhocário, frutas, árvores que dão sombra e hortaliças.

Na horta, o estudante Gelso Vieira Fernandes, de 11 anos, aprendeu que naquelas plantas não tem veneno. “Aqui só usa mesmo o esterco pras plantas, nada assim de agrotóxico. Aqui, tudo é orgânico”, ele explica.

Os cuidados com a horta estão a cargo de algumas alunas e do seu Zé Neno, agricultor que, como todos na região, já usou veneno. “O nosso Brasil tem esse destino de usar muito veneno. Os outros países produzem muito veneno, e o Brasil gosta de comprar”, acredita Antônio José de Oliveira, o seu Zé Neno. “Além de acabar com a saúde da gente, acaba com o solo”.

A escola virou referência no município. Tudo lá é decidido por professores, pais de alunos e representantes da fazenda.

E tem classe em que os alunos já são bem grandinhos: todos os dias, 92 funcionários da fazenda passam duas horas do período de trabalho numa sala de aula.

É o programa de alfabetização de jovens e adultos, onde estão matriculados o Raidon e a dona Socorro, os agricultores que mostramos na primeira reportagem. Ao lado dos colegas de trabalho, aprendem as primeiras letras e sorriem com a vitória.

“A coisa que eu tinha mais desejo no mundo era poder ler. Às vezes, os meninos chegam e perguntam: ‘mãe, que nome é esse?’ Aí eu vou ler, e eles batem palma porque eu já sei. Eu fico muito alegre e satisfeita, porque eu não sabia de nada”, conta dona Socorro.

A filha de Raidon também vê o progresso do pai. “Às vezes, eu tô em casa e minha filha diz assim: ‘pai, que nome é esse aqui?’. Ela sabe, e vem me perguntar. E se eu erro, ela fala: ‘mas pai, você é mais velho do que eu e não sabe nem o que eu sei?’. E eu explico: ‘não é assim não, é que eu tô aprendendo agora. Mais na frente, se eu for mais inteligente que você, eu posso lhe ensinar’”.

Quando chegar a vez de Estéfani aprender as primeiras letras, quem sabe ela já terá a ajuda do pai? Ela é a filha mais nova do vaqueiro Raindon e de Aurilene.

Raidon começou na empresa como capinador. Foi seu primeiro emprego de carteira assinada. E ele foi crescendo, mudando de função e melhorando de salário. “Antes de eu começar trabalhar aí, eu morava com os outros, de favor, na casa de um, de outro. Depois comecei a morar, arrumei um pedacinho de chão pra construir o meu lar. Não ta terminado, mas já tô debaixo do que é meu. Se Deus quiser daqui uns dois, três ou quatro anos eu to com ele pronto”, planeja o vaqueiro.

A dona-de-casa Aurilene de Brito ainda se lembra o que o casal fez com o primeiro salário. “Ele nunca tinha trabalhado assim. Aí, ele recebeu o salário. Ah, compramos bastante coisa pra comer, uma feira enorme. E ele pegou uma parte do dinheiro e guardou. Com o segundo pagamento, ele inteirou e comprou uma televisão”, ela diz.

Hoje, o casal já tem carro na garagem da casa própria. Mas a mudança não ficou só nos bens materiais. A filha mais velha, Jéssica, de sete anos, tem estudo garantido na escola da fazenda.

E, enquanto prepara um café, Aurilene, que se casou aos 13 anos, conta como o marido mudou depois do emprego fixo. “Até o modo dele se vestir, a barba, que ele não se preocupava de fazer, de vestir uma roupa, não se preocupava muito, não. E depois disso, até o comportamento dele pessoal modificou, pra melhor. Ele respeita mais a mim. Ele era um pouco machista, melhorou mais. Tinha muito preconceito com roupa de mulher, vestido decotado, ele exagerava um pouco. Já melhorou, ele trabalhando aí, conversando com vários tipos de gente, todo mundo tem uma opinião, melhorou bastante”, analisa Aurilene.

A emoção de ver a vida melhorar, o orgulho de ter seu trabalho todo dia e de chegar em casa com a sensação de dever cumprido – tudo isso tem a ver com a agricultura biodinâmica.

O social, ele caminha junto com a biodinâmica. A biodinâmica já traz que quem faz a agricultura tem que ser respeitado e tem que ter qualidade de vida. E pra isso, as fazendas biodinâmicas têm como uma das suas funções proporcionar isso ao colaborador”, afirma a agrônoma da fazenda, Leocádia Danielli.

Você deve estar pensando: tudo isso é lindo, mas um grupo americano não investiria desta maneira se não houvesse um bom retorno financeiro.

Claro, a fazenda não deixa de ser um negócio. “Nossa fazenda faturou em 2005 por volta de R$ 25 milhões a R$ 30 milhões. O faturamento desse ano ainda é meio um ponto de interrogação, as eu diria que deve aumentar por volta de 40%”, calcula o diretor financeiro da fazenda, Gilberto Lima. “Porém, vale salientar que a nossa fazenda aqui no Brasil, uma fazenda no Méxio e duas nos Estados Unidos fazem parte de um grupo americano que faturou no ano passado por volta de US$ 3,2 bilhões”.

Bilhões de dólares! É uma quantia tão grande quanto irreal para os funcionários e parceiros da fazenda. Para eles, riqueza mesmo é levar a vida com dignidade:

“A idéia nossa era a gente ser um cidadão com direito a tudo, à escola, educação, lazer brincadeira, sei lá. Tudo isso que precisamos. Isso é um sonho nosso, ter uma vida completa, e não faltar um pedaço”, resume um dos agricultores.

“Está bom demais às vistas do que eu era, agora sou outra. Achei que eu cresci mais. Sou feliz e tenho orgulho”, diz dona Socorro.

“Eu não gosto de exagero, não. É só reformar a minha casa, viver minha vida com meu esposo”, resume Aurilene. “Se Deus quiser, ainda dá pra melhorar”, completa Raidon.

Hoje em dia, o mercado está cada vez mais exigente. Isso envolve a qualidade dos produtos, e também o respeito ao meio-ambiente e aos direitos sociais. A natureza, os consumidores e os trabalhadores só têm a ganhar com isso.