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A acerola trouxe os americanos ao Ceará e, em oito anos,
já se estabeleceu como a principal cultura da fazenda. Agora, é hora de
apostar na diversificação.
E o novo produto pode estar logo ali, na natureza. Plantinhas conhecidas
há anos, usadas no chazinho da vovó, são pesquisadas pelo biólogo Francisco
Ávila na farmácia verde da fazenda.
Tem macela, erva baleeira, mutri, equinácea, e um destaque: o picão
preto. Ele sempre foi considerado uma praga no campo, mas isso está
mudando. É que suas folhas contém ácido clorogênico, uma substância
antiinflamatória que já está sendo explorada pela fazenda.
Por enquanto, o picão ocupa apenas um hectare, mas é só o começo. “Nós
vamos plantar de 30 a 90 hectares de picão preto pra produzir uma grande
quantidade dessa matéria. E o que é interessante é que há um reflexo na
comunidade local, porque isso está diretamente relacionado à contratação de
pessoas. Então, você imagina a quantidade de famílias que vão ser
beneficiadas por um projeto como esse? Pessoas que nem imaginam que suas
vidas vão mudar”, diz o biólogo Francisco Ávila.
A vida já mudou muito por lá, desde o início da fazenda. Boas casinhas
na beira da estrada que leva à empresa, por exemplo, não existiam.
Outra mudança ocorreu no assentamento Valparaíso, vizinho da fazenda. A
novidade é o plantio de acerola: há um ano e meio, alguns assentados
viraram parceiros da fazenda, cultivando 10 hectares de acerola orgânica
pra completar a demanda. O pomar comunitário é tocado por 18 assentados.
Seu Vicente, Seu Benedito e seu Xixico depositam nas plantas, ainda
pequenas, grandes expectativas. Seu Benedito Salvino já pensa nas mudanças
que a acerola vai trazer: ”Quando nós tiver produzindo. vamos precisar em
média de umas 200 pessoas pra colher. E como é um projeto familiar, sem
dúvida alguma nos vamos contar com a população de assentados, que em vez de
sair do assentamento pra trabalhar fora para outros proprietários, vão
trabalhar aqui em Valparaíso”.
Como as aceroleiras do assentamento, mudinhas de plantas nativas um
pouco distantes dali também vão crescer. Elas fazem parte de um projeto da
empresa para recuperar a mata ciliar do rio Jaburu, que abastece o açude,
ao lado da fazenda.
Muitos agricultores se recusaram a plantar as mudinhas pra não perder
espaço na beira do rio. Mas, aos poucos, as cabeças por lá vão aprendendo a
pensar diferente – algumas destas cabeças, formadas na escola da fazenda.
A escola, que hoje fica dentro da fazenda, também mudou muito. “Antes,
tinha duas salas só. As salas não tinham janela, a porta era quebrada, as
cadeiras também. Acho que alguns alunos sentavam até no chão. A gente
dividia sala com uma outra turma, também”, recorda Nayara Gomes Honorato,
de 15 anos, que estuda lá.
Hoje, a escola foi ampliada. Tem aula de música e artesanato,
biblioteca, escolinha de futebol e até equipe de atletismo. Durante o
recreio, os alunos se divertem com a rádio-escola.
Na hora da merenda, a cozinheira dona Margarida prepara a sopa com a
multimistura fornecida pela fazenda. Usando farelos de vários vegetais como
trigo, amendoim e macaxeira, a multimistura é um composto de vitaminas.
Depois que ela passou a fazer parte da merenda, as crianças recuperaram
peso e melhoraram o desempenho escolar.
Ao lado da escola, foi criada uma horta que, de certa forma, é uma
miniatura do sistema da fazenda. Tem criação de animais, minhocário, frutas,
árvores que dão sombra e hortaliças.
Na horta, o estudante Gelso Vieira Fernandes, de 11 anos, aprendeu que
naquelas plantas não tem veneno. “Aqui só usa mesmo o esterco pras plantas,
nada assim de agrotóxico. Aqui, tudo é orgânico”, ele explica.
Os cuidados com a horta estão a cargo de algumas alunas e do seu Zé
Neno, agricultor que, como todos na região, já usou veneno. “O nosso Brasil
tem esse destino de usar muito veneno. Os outros países produzem muito
veneno, e o Brasil gosta de comprar”, acredita Antônio José de Oliveira, o
seu Zé Neno. “Além de acabar com a saúde da gente, acaba com o solo”.
A escola virou referência no município. Tudo lá é decidido por
professores, pais de alunos e representantes da fazenda.
E tem classe em que os alunos já são bem grandinhos: todos os dias, 92
funcionários da fazenda passam duas horas do período de trabalho numa sala
de aula.
É o programa de alfabetização de jovens e adultos, onde estão
matriculados o Raidon e a dona Socorro, os agricultores que mostramos na
primeira reportagem. Ao lado dos colegas de trabalho, aprendem as primeiras
letras e sorriem com a vitória.
“A coisa que eu tinha mais desejo no mundo era poder ler. Às vezes, os
meninos chegam e perguntam: ‘mãe, que nome é esse?’ Aí eu vou ler, e eles batem
palma porque eu já sei. Eu fico muito alegre e satisfeita, porque eu não
sabia de nada”, conta dona Socorro.
A filha de Raidon também vê o progresso do pai. “Às vezes, eu tô em casa
e minha filha diz assim: ‘pai, que nome é esse aqui?’. Ela sabe, e vem me
perguntar. E se eu erro, ela fala: ‘mas pai, você é mais velho do que eu e
não sabe nem o que eu sei?’. E eu explico: ‘não é assim não, é que eu tô
aprendendo agora. Mais na frente, se eu for mais inteligente que você, eu
posso lhe ensinar’”.
Quando chegar a vez de Estéfani aprender as primeiras letras, quem sabe
ela já terá a ajuda do pai? Ela é a filha mais nova do vaqueiro Raindon e
de Aurilene.
Raidon começou na empresa como capinador. Foi seu primeiro emprego de
carteira assinada. E ele foi crescendo, mudando de função e melhorando de
salário. “Antes de eu começar trabalhar aí, eu morava com os outros, de
favor, na casa de um, de outro. Depois comecei a morar, arrumei um
pedacinho de chão pra construir o meu lar. Não ta terminado, mas já tô debaixo
do que é meu. Se Deus quiser daqui uns dois, três ou quatro anos eu to com
ele pronto”, planeja o vaqueiro.
A dona-de-casa Aurilene de Brito ainda se lembra o que o casal fez com o
primeiro salário. “Ele nunca tinha trabalhado assim. Aí, ele recebeu o
salário. Ah, compramos bastante coisa pra comer, uma feira enorme. E ele
pegou uma parte do dinheiro e guardou. Com o segundo pagamento, ele
inteirou e comprou uma televisão”, ela diz.
Hoje, o casal já tem carro na garagem da casa própria. Mas a mudança não
ficou só nos bens materiais. A filha mais velha, Jéssica, de sete anos, tem
estudo garantido na escola da fazenda.
E, enquanto prepara um café, Aurilene, que se casou aos 13 anos, conta
como o marido mudou depois do emprego fixo. “Até o modo dele se vestir, a
barba, que ele não se preocupava de fazer, de vestir uma roupa, não se
preocupava muito, não. E depois disso, até o comportamento dele pessoal
modificou, pra melhor. Ele respeita mais a mim. Ele era um pouco machista,
melhorou mais. Tinha muito preconceito com roupa de mulher, vestido
decotado, ele exagerava um pouco. Já melhorou, ele trabalhando aí,
conversando com vários tipos de gente, todo mundo tem uma opinião, melhorou
bastante”, analisa Aurilene.
A emoção de ver a vida melhorar, o orgulho de ter seu trabalho todo dia
e de chegar em casa com a sensação de dever cumprido – tudo isso tem a ver
com a agricultura biodinâmica.
“O social, ele caminha junto com a biodinâmica.
A biodinâmica já traz que quem faz a agricultura tem que ser respeitado e
tem que ter qualidade de vida. E pra isso, as fazendas biodinâmicas
têm como uma das suas funções proporcionar isso ao colaborador”, afirma a
agrônoma da fazenda, Leocádia Danielli.
Você deve estar pensando: tudo isso é lindo, mas um grupo americano não investiria
desta maneira se não houvesse um bom retorno financeiro.
Claro, a fazenda não deixa de ser um negócio. “Nossa fazenda faturou em
2005 por volta de R$ 25 milhões a R$ 30 milhões. O faturamento desse ano
ainda é meio um ponto de interrogação, as eu diria que deve aumentar por
volta de 40%”, calcula o diretor financeiro da fazenda, Gilberto Lima.
“Porém, vale salientar que a nossa fazenda aqui no Brasil, uma fazenda no
Méxio e duas nos Estados Unidos fazem parte de um grupo americano que
faturou no ano passado por volta de US$ 3,2 bilhões”.
Bilhões de dólares! É uma quantia tão grande quanto irreal para os
funcionários e parceiros da fazenda. Para eles, riqueza mesmo é levar a
vida com dignidade:
“A idéia nossa era a gente ser um cidadão com direito a tudo, à escola,
educação, lazer brincadeira, sei lá. Tudo isso que precisamos. Isso é um
sonho nosso, ter uma vida completa, e não faltar um pedaço”, resume um dos
agricultores.
“Está bom demais às vistas do que eu era, agora sou outra. Achei que eu cresci
mais. Sou feliz e tenho orgulho”, diz dona Socorro.
“Eu não gosto de exagero, não. É só reformar a minha casa, viver minha
vida com meu esposo”, resume Aurilene. “Se Deus quiser, ainda dá pra
melhorar”, completa Raidon.
Hoje em dia, o mercado está cada vez mais exigente. Isso envolve a
qualidade dos produtos, e também o respeito ao meio-ambiente e aos direitos
sociais. A natureza, os consumidores e os trabalhadores só têm a ganhar com
isso.
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